Fantasia Sombria (Dark Fantasy)
- Ingrid Gomm
- 16 de jan.
- 2 min de leitura
A fantasia é apaixonante. A ficção funciona como um remédio para os moldes opressivos do cotidiano, uma forma de vivenciar experiências novas e diversas sob um prisma não usual.
Já a fantasia sombria, a dark fantasy, carrega toda essa magnitude avassaladora da fantasia, mas nos vincula diretamente à crueldade da humanidade. Não se trata de uma fantasia mais ou menos sanguinária, nem de contabilizar lutas ou mortes. Trata-se da ausência de conforto, da falta de heroínas que passam a narrativa inteira provando suas virtudes, e da exposição constante de que o poder está sempre atrelado à ambição, ao egoísmo, ao controle, à vingança e, sobretudo, ao fato de que é impossível viver sem arrependimentos.
Sempre haverá algo que não será digno de orgulho. Ainda assim, a personagem seguirá vivendo com isso, revelando que os monstros não estão sempre do lado de fora; muitas vezes, estão dentro de nós.
Outro fator importante a se considerar é que o poder não traz redenção, assim como dificilmente existe um final limpo. A crueldade humana caminha lado a lado com o fantástico, e os personagens centrais — sejam protagonistas ou não — também precisam habitar essa dualidade. É por isso que a dark fantasy costuma incomodar: ela não premia boas intenções. Premia sobrevivência, estratégia e, às vezes, crueldade.
As protagonistas erram, ferem, tomam decisões moralmente indefensáveis. Mesmo quando essas escolhas podem ser explicadas, isso não significa que sejam justificadas.
Gosto de pensar que o leitor de fantasia sombria não encontrará personagens para admirar, mas para compreender, e isso geralmente significa aceitar que não há qualquer garantia de justiça narrativa. O mal vence, pessoas boas morrem, protagonistas podem ser terrivelmente perversos, e o mundo segue girando como se nada tivesse acontecido. Nesse espaço, alguns leitores encontram frustração e incômodo; para outros, é justamente aí que mora a fascinação.
Não existe premiação para a bondade, e a maldade não será punida de forma equilibrada ou, talvez, de forma alguma. Personagens queridos morrem, finais podem ser amargos, decisões erradas têm consequências irreversíveis, e nada disso é exceção. A violência pode funcionar como linguagem política. Raramente alguém deseja poder munido de uma justificativa moral; na maior parte das vezes, trata-se apenas de ambição ou controle.
Vencer, quase nunca, é sobre ser o melhor. Na maioria das vezes, é apenas sobre ser o último de pé.
É nesse mesmo espaço de desconforto e ambiguidade que A Ascensão se insere. A narrativa não se orienta por promessas de redenção ou heroísmo, mas pelo impacto das escolhas feitas quando o poder deixa de ser abstrato e passa a exigir um preço concreto. O mundo não se molda à ética das personagens; são elas que precisam aprender a existir com as consequências do que decidem fazer para seguir adiante.








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